Resenha: The Help (Histórias Cruzadas)

Título no Brasil: Histórias Cruzadas
Título original: The Help
Ano: 2011
Direção e Roteiro: Tate Taylor
Baseado no livro de Kathryn Stockett

The Help estava na minha lista de "Quero Ver" do Filmow há um bom tempo, mas eu sempre fui bem preguiçosa pra filmes e acabava adiando sempre. Mas, depois que minhas amigas começaram a assistir e elogiar e ele apareceu como sugestão para mim no Netflix, decidi assistir. Não me arrependi. Para falar a verdade, The Help é um dos meus filmes favoritos agora.

The Help se passa nos anos 60, no Sul dos EUA (Mississipi). Numa sociedade marcada pela segregação racial (que era, inclusive, prevista em leis - ver Leis de Jim Crow), uma jovem jornalista, Skeeter (Emma Stone) resolve ouvir as empregadas domésticas negras (principalmente Aibleen Clark, interpretada por Viola Davis), que estão acostumadas a criar crianças brancas que depois se tornam suas patroas. Além disso, mostra a cobrança da sociedade em cima de Skeeter que, aos 23 anos, é considerada velha demais para estar solteira.

É um filme pesado. Apesar de ser classificado como uma comédia dramática, é preciso ser assistido com seriedade e muita observação. No decorrer do longa, a gente acaba entendendo quando dizem que as empregadas domésticas são escravas assalariadas - ok, é nos EUA dos anos 60, mas dá, sim, para ter uma outra perspectiva se colocarmos lado a lado com a realidade das empregadas domésticas no Brasil.

Um dos momentos mais pesados para mim foi quando Hilly, uma dona de casa branca interpretada por Bryce Dallas Howard, se recusa a usar o banheiro social da casa onde Aibleen trabalha pois a empregada também usa e "negros têm doenças diferentes das nossas". E aí eu lembrei do quanto é comum que o "quarto da empregada" ou o "banheiro da empregada" existam desde a planta em edifícios de classe média no Brasil. Sem falar na relação da cor com o trabalho doméstico. Se, no filme, era obrigatória - não haviam empregadas brancas ou patroas negras, no Brasil, é quase assim, como mostram pesquisas que relacionam a cor e o trabalho doméstico.

Em determinado momento, a expressão "negra insolente" é usada. Ela é muito comum em "brincadeiras" entre jovens, e também me fez pensar no peso de cada expressão carregada de racismo travestido de brincadeira. O que negros sofreram e ainda sofrem é tão horrível que reduzir a uma brincadeira entre pessoas brancas ou não, mas que sofrem racismo em menor grau, é simplesmente cruel.

Por outro lado, aborda também a obrigação das mulheres em casar e ter filhos e viver para  isso. A personagem Celia Foote (Jessica Chastain) é uma das minhas favoritas e sua relação com a empregada Minny, interpretada por Octavia Spencer (vencedora do Oscar de atriz coadjuvante pelo papel), é linda. Mas, por trás da postura sorridente e extrovertida, há uma mulher que sofre com a incapacidade de oferecer o que a sociedade tanto espera dela.

Skeeter, a protagonista, foi interpretada muito bem por Emma Stone, uma das minhas atrizes preferidas desta geração de Hollywood. Diferentemente das moças com quem cresceu, ela desenvolveu uma relação muito boa com a empregada que a criou, fez duas faculdades e decide, por conta própria, escrever um livro sob o ponto de vista das empregadas domésticas negras de Jackson, Mississipi - The Help. É a partir desta iniciativa que as coisas começam a mudar .

Aibleen é a primeira a ajudar. Dentre mil outras características que fazem dela maravilhosa, algo que me chamou a atenção é o que ela faz com as crianças de quem cuida. Ela, a todo momento, faz com que a filha da patroa pra qual trabalha repita "You is kind, you is smart, you is important" (Você é bondosa, você é inteligente, você é importante). A importância de tal frase, de tais elogios, para uma criança de dois anos que não recebe atenção nenhuma dos pais, ainda hoje, é impossível de se por em palavras e é imperceptível para muita gente. Não para Aibleen.

Eu poderia passar a noite escrevendo sobre o filme e não seria o suficiente. Tem tanta coisa a se elogiar. Não consigo pensar em nada negativo. O cenário é lindo, o figurino, idem. Cada personagem e história secundária é explorado o suficiente para despertar a empatia e sensibilidade de quem assiste, levando a uma reflexão que, eu espero, vá na mesma linha da minha: uma comparação entre a realidade do filme e a realidade "real", e a triste constatação de que ainda há muito em comum.

Eu não fiquei surpresa pelas indicações ao Oscar que o filme teve - Melhor Filme, Melhor Atriz (Viola Davis), Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain e Octavia Spencer - vencedora). Sem dúvidas, foi um dos melhores filmes que assisti esse ano e me inspirou a dar chances aos filmes aprovados pela Academia - confesso sempre ter sido um tanto rebelde quanto a eles. Só posso dizer uma coisa: ASSISTAM, ASSISTAM, ASSISTAM. Mas, não obstante, reflitam e analisem a obra como um todo, porque não há um só personagem que não mereça um segundo olhar. Não podia esperar menos de um filme que foca seu enredo em mulheres, brancas e negras, independentes ou não.

Avaliação: 10/10 Estrelas

Vagão rosa - solução ou segregação?

Vagão exclusivo para mulheres no metrô do Rio de Janeiro (Metrô Rio/Divulgação)
É inegável que o feminismo tem ganhado espaço na mídia. Pro bem ou pro mal, algumas medidas estão sendo tomadas e isso é muito mais do que podíamos esperar até alguns anos atrás. No final do mês passado, foi proposta a criação de mais um vagão exclusivo para mulheres, desta vez no metrô de Belo Horizonte (já existe no RJ). Essa proposta dividiu o meio feminista, pois, se de um lado afasta mulheres de seus agressores em teoria, de outro, pode causar muitos problemas. É tapar o sol com a peneira, é fazer com que os incomodados se mudem em vez de corrigir quem incomoda.

Se eu não fosse uma pessoa envolvida na questão feminista, teria dificuldades em ver o lado negativo. Mas nesses últimos três anos, desenvolvi um senso crítico que dificilmente me permite ser 100% contra ou 100% a favor de certas coisas. O vagão vai funcionar apenas em horários de pico, mas é apenas UM vagão. Para milhares de mulheres que dependem do metrô todos os dias. Resultado: não vai caber todo mundo. E ai daquelas que forem para os vagões mistos. "Não quer ser encoxada? Vai pro vagão rosa. Já que tá aqui, não reclama."

Outro aspecto negativo é que, obviamente, não se trata de uma solução. Se trata de uma medida "cala a boca" pra tantas mulheres que sofrem com o assédio no transporte público. Por outro lado, a solução seria a longo prazo, com campanhas e punição severa para assediadores, o que daria muito mais trabalho do que colar um adesivo rosa na porta do vagão sem ao menos fiscalizar se ele está sendo usado corretamente. Porque é isso que as mulheres do Rio, onde o vagão existe há um tempo, dizem: homens entram mesmo em horário de pico, e entram com tanta confiança que dificilmente mulheres chamam sua atenção.

Pelos motivos expressos acima, eu não consigo comemorar a criação do vagão rosa. Mas muitas irmãs o fazem. Não por não conhecerem os problemas, mas por compreenderem que, para uma mulher que não tem contato com a teoria do feminismo, pouco importa os furos na intenção da criação do vagão. Pouco importa os "mas e se" que eu expus acima. Elas só querem um espaço seguro para poderem sentar e esperar sua estação chegar tranquilamente depois de um dia cheio de trabalho ou estudo. Porque se o mundo ainda não é seguro para muitas de nós por causa de homens, que pelo menos um vagão seja. Pensando nisso, eu não comemoro, mas também não vejo motivos para boicotar ou ir contra a criação do vagão rosa. É segregação, sim, mas é por uma boa causa. Infelizmente, não temos muitos outros caminhos tão curtos quanto esse. Mas está longe, muito longe, de ser uma solução. Não nos conformaremos jamais, não nos calaremos nunca.

Sumiço

Oi, gente. Eu sumi esses tempos por vários motivos, dentre os quais fim de semestre pesado na faculdade, confusão mental em diversos aspectos, etc. Mas a questão é que tenho algumas novidades:
1. Tô namorando desde o dia 24 de maio e tô feliz, apesar de estar descobrindo que relacionamento não é o conto de fadas que eu imaginava e que é um aprendizado constante. Posso escrever mais sobre isso depois.
2. Estou lendo sobre feminismo radical. No "Quem sou eu" me declaro como uma, mas acho que ainda me falta leitura para fazê-lo com mais frequência.
3. Estou de férias e tudo o que faço é ler contos de terror e ver curtas de terror também, socorro. Sou fofinha demais pra essas coisas macabras hahaha
E é isso. Também tô de volta. Beijos <3